Corporeidades não normativas: mulheres negras e obesas em uma leitura sócio-histórica e simbólica
Palavras-chave:
mulheres negras, obesidade, racismo, gordofobia, dança da indignaçãoResumo
Este trabalho, construído sob a forma de uma Revisão Narrativa de Literatura, tem como propósito compreender como mulheres negras e obesas experienciam sua corporeidade em uma sociedade marcada por estruturas profundas de racismo e gordofobia. Parte-se da escuta atenta às produções científicas que abordam essas vivências plurais, buscando revelar os discursos sociais que recaem sobre esses corpos, frequentemente atravessados por estigmas, rejeições e apagamentos. Interessa investigar como a estética normativa atua como instrumento de controle, comprometendo o reconhecimento social e subjetivo dessas mulheres. A interseccionalidade entre negritude e obesidade é explorada em suas camadas históricas, culturais, simbólicas e políticas, compreendendo que esses marcadores não se somam, mas se entrelaçam de maneira complexa e violenta na construção das identidades. O estudo ancora-se em um referencial teórico crítico, dialogando com autoras e autores que pensam a partir das margens e com as margens: Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Angela Davis, bell hooks. Mais do que identificar feridas, esta pesquisa busca também mapear caminhos de resistência e autoafirmação. A partir das contribuições simbólicas de Marion Woodman e da potência poética-política da dança na obra de Gal Martins, reflete-se sobre o movimento do corpo como forma de insurgência e reconexão. Por fim, propõe-se que a dança pode ser um meio sensível e poderoso de resgatar a deusa negra e obesa, soterrada pelas camadas de opressão impostas pelo racismo e pela gordofobia. Logo, dançar é mais que movimento, é um retorno, é reexistência.
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